Poesia - Anónimo




Poesia é beleza,
riqueza sem fim.
Faz nascer a ternura
e sentir a doçura
da flor de jasmim.


No deserto da vida
e na escuridão,
é paz renascida,
é luz oferecida
em comunhão.


No silêncio do mundo,
é firme expressão.
Não busca vaidades
mas busca a verdade
e a rectidão.


Poesia é dom,
infância encantada,
alegria sentida
na senda perdida
e reencontrada.


Nascem as palavras,
sementes de amor,
que voam nos ares
e vogam nos mares
em ondas de cor.


São pobres os homens
que gritam rancor
e vivem na ânsia,
na cega ganância,
semeando dor.


Ignoram os homens
que a simplicidade
os abre à beleza,
à grande riqueza
da fraternidade.


Poesia é sonho,
é pássaro, luz,
arco-íris de sons.
Mensagem de paz
e voz que nos traz,
do fundo das cinzas,
a esperança perdida
na vida e seus dons.






Anónimo

Não te assustes - Matilde Rosa Araújo


Não te assustes


É o falar das folhas

Seu verde falar

Com o vento que vai

Com o vento que vem

Não te assustes e aprende a escutar

O vento que vai

O vento que vem

Verdes folhas e seu falar.




Matilde Rosa Araújo
Segredos e Brinquedos
Lisboa, Ed. Caminho, 2001

O papagaio de papel - Sebastião da Gama




Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá, bem preso à terra,
vibrando!

Aos arranques,
a fazer tremer a terra,
a querer voar
pelo ar
até pertinho do Céu…

Deixem-no lá, deixem-no lá, o papagaio!
Deixem-no lá viver a sua inquietação
e ser verdade aquela ânsia
de fugir.
Não lhe cortem o cordel!
Poupem o papagaio à dor enorme
de cair,
papel inútil, roto, pelo chão.

Não lhe ensinem,
ao pobre papagaio de papel,
que a sua inquietação
é a única força que ele tem.

Deixem-no lá,
naquela ânsia de fuga,
no sonho (a que uma navalha
pode dar o triste fim)
de fazer ninho no Céu:
Sempre anda longe da terra, assim,
o comprimento do cordel…

Deixem-no lá, deixem-no lá,
o papagaio de papel!...



Sebastião da Gama
Itinerário Paralelo
Lisboa, Ed. Ática, s/d.

* * *

Queres dar voz ao papagaio de papel de que nos fala o poema? Pensa na sua inquietação, nos seus sonhos, na sua ânsia de fugir…

O berlinde - Matilde Rosa Araújo


Era uma vez uma pomba
Sem um ninho, sem um pombal,
Era branca como a Lua
E os seus olhos de cristal.

Era uma vez uma pomba
Que não sabia chorar:
O seu choro trrru… trrru…
Era um modo de cantar.

Era uma vez uma pomba
Que noite e dia voava:
Fosse noite, fosse dia,
Nunca a pomba descansava.

Era uma vez uma pomba
Que nos céus, longe, voava,
Seu coração um berlinde
Grande segredo guardava.

Era uma pomba tão estranha
Que voava noite e dia:
Quanto mais alto voava
Mais da terra ela se via.

Era uma vez uma pomba
Com penas de seda real:
Era uma pomba do Mundo
Com seus olhos de cristal.


Seu coração um berlinde
De vidros de sete cores,
Que do sol tinha o brilhar,
Um espelhinho de mil flores.

Um dia longe nos céus,
Viu um menino a chorar
Sentadinho sobre um monte,
Numa noite de nevar.

Não era branco nem negro
Assim na neve o menino,
Seu chorar era triste,
Tornava-o mais pequenino.

E a pomba logo o viu
Com seus olhos de cristal:
Logo desceu para o monte
– Era aquele o seu pombal.

Poisou nas mãos do menino
Com seu corpo, seu calor:
Mãos por debaixo da neve,
Ninguém lhes sabia a cor.


Dorme, dorme, meu menino…
Branco ou negro tanto faz:
Meu coração é um berlinde,
Tem o segredo da Paz.

E o menino já ria,
Podia dormir sem medo,
Sonhava com o berlinde,
Coração feito brinquedo.

Há quem diga que uma estrela
Fugiu do céu a correr,
Atravessou todo o mundo
Para o segredo dizer.

Escutaram-na os meninos,
Têm um berlinde na mão:
Seja noite de Natal,
Seja noite de S.João.


Matilde Rosa Araújo
Mistérios
Lisboa, Livros Horizonte, 1988


* * *

És capaz de imaginar qual o segredo que a estrela queria dizer ao Mundo?

Golo - Matilde Rosa Araújo

Os meninos

Que jogam à bola na minha rua

Jogam com o Sol

E os pés dos meninos

São pés de alegria e de vento

A baliza uma nuvem tonta

À toa

Na luz do dia

E eu olho os meninos e a bola

Que voa

E ouço os meninos gritar: Go…o…lo!...

E não há perder nem ganhar

Só perde quem os olhos dos meninos

Não puder olhar

Matilde Rosa Araújo
Mistérios
Lisboa, Livros Horizonte, 1988


* * *

Quem são, a teu ver, aqueles que não podem olhar “os olhos dos meninos”?

Pelo sonho é que vamos - Sebastião da Gama



Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

Partimos. Vamos. Somos.


Sebastião da Gama
Pelo sonho é que vamos
Lisboa, Ed. Ática, 1992

História aberta - Matilde Rosa Araújo




Era uma vez uma casa

Muito grande

Com um tecto sem fim

Nem sempre azul

Uma casa enorme

Onde habita uma grande família

Uma família tão grande

Que os seus irmãos julgam que não se conhecem

E todos se conhecem

E todos se devem amar

Nesta casa há guerra

E eu choro a um canto desta casa

Inútil choro

É terrível ouvir este próprio chorar


Matilde Rosa Araújo
Mistérios
Lisboa, Livros Horizonte, 1988

A guerra - Anaïs Vaugelade

Era a guerra. Todas as manhãs os homens partiam para os campos de batalha. Os que regressavam à noite traziam os mortos e os estropiados. Havia guerra há tanto tempo que já ninguém se lembrava da razão por que ela tinha começado.

Vítor II, rei dos Vermelhos, contava e recontava os soldados do seu reino:

— Dez mais vinte faz trinta; ainda posso acrescentar cinquenta… Oitenta homens! Oitenta homens não chegam para ganhar a guerra.

E começava a chorar. Felizmente para ele, Vítor II, rei dos Vermelhos, tinha um filho que se chamava Júlio. Júlio entrava na sala do trono e dizia:

— Coragem, Pai!

E o rei voltava a ter coragem.

Armando XII, rei dos Azuis, também só tinha oitenta soldados e um filho. Mas, quando Armando XII ficava desanimado, o filho não sabia o que dizer. O filho de Armando XII chamava-se Fabiano e interessava-se pouco pela guerra… Passava os dias no parque, sentado num ramo. Um dia, Fabiano recebeu uma carta do príncipe Júlio:

Os nossos pais já quase não têm soldados; portanto, se és homem, pega no teu cavalo e na tua armadura. Marco-te encontro para amanhã de manhã no campo de batalha; bater-nos-emos em duelo e aquele que ganhar o combate ganhará ao mesmo tempo a guerra.

Assinado: Júlio

Fabiano suspirou. Nem por isso gostava muito de montar a cavalo. No dia seguinte, Fabiano chegou ao encontro montado numa ovelha.

— Em guarda! — disse Júlio.

— Béééé! — fez a ovelha.

Isto assustou o cavalo que se empinou na vertical. Júlio caiu.

— Estás ferido? — perguntou Fabiano.

Mas Júlio estava mais do que ferido, estava morto. Os soldados vermelhos berraram:

— O combate foi falseado!

Fabiano quis explicar-lhes que tinha sido um acidente, mas, como eles tinham piques e lanças, preferiu fugir.

Armando XII, rei dos Azuis, esperava-o.

— Devias ter vergonha! — ralhou ele.

— Mas eu não fiz nada — disse Fabiano.

— Justamente — respondeu o pai. — Vergonha e vergonha a dobrar; expulso-te do meu reino.

Fabiano escondeu-se no parque. Era de tarde e os soldados tinham recomeçado a guerra; então, Fabiano decidiu fazer alguma coisa: decidiu escrever duas cartas, uma para Armando XII e outra para Vítor II. As duas cartas diziam exactamente a mesma coisa:

Estou em casa do rei Amarelo, Basílio IV, que me deu um grande exército. Portanto, se sois homens, pegai nos vossos cavalos e nas vossas armaduras. Marco-vos encontro para amanhã de manhã no campo de batalha.

Assinado: Fabiano

Armando XII recebeu a carta nessa noite.

—A nulidade do meu filho, um grande exército? — disse ele. — Devem ser só para aí uns oito e eu faço picado deles.

Quando Vítor II recebeu a carta, encolheu os ombros; declarou que esmagaria esse vencedor de combates falseados. Meteu a carta ao bolso e foi deitar-se.

Quando viu chegar o exército Azul, o rei dos Vermelhos exclamou:

— Que fazeis vós aqui, Senhores? Nós temos encontro marcado com o exército Amarelo; portanto, abandonem este local.

— Imaginai, Senhores, que nós também temos encontro marcado com o exército Amarelo.

— Não compreendo — disse Vítor II, rei dos Vermelhos.

— Eu também não — disse Armando XII, rei dos Azuis.

Compararam as duas cartas.

— Na sua opinião, quantos serão os soldados Amarelos?

—Talvez oito ou oitenta ou, talvez, oitocentos…

— Que importa, se os Azuis são verdadeiros valentes? — disse Armando XII.

E Vítor II replicou:

— Os Vermelhos não temem ninguém.

Ao meio-dia, os Amarelos ainda não tinham chegado. Embora bravos e não receando ninguém, o que é certo é que a espera enerva:

— Senhores — disse Armando XII — creio que, face a oitocentos homens, devíamos aliar os nossos exércitos.

— É justo! — respondeu Vítor II.

Esperaram ainda toda a tarde. Às sete, os reis discutiram se haviam de regressar aos seus castelos, mas decidiram que não, que era melhor ficar, para o caso de os Amarelos chegarem de noite; e mandaram vir sanduíches. No dia seguinte, os Amarelos continuavam sem chegar. Então, começaram a instalar tendas e a acender fogueiras. Ao terceiro dia, as mulheres dos soldados vieram com as suas caçarolas e colheres, porque não era possível sustentar dois exércitos a sanduíches. Ao quarto dia, trouxeram os bebés. E, ao quinto dia, as outras crianças que se aborreciam sozinhas em casa. Os mais velhos montaram comércios. Ao décimo dia, o campo de batalha parecia uma aldeia.

Fabiano pensou: “Não tenho exército nem nunca tive; mas, graças a mim, a guerra acabou.” Então Fabiano foi a casa de Basílio IV, rei dos Amarelos, para lhe contar a história. Basílio riu muito quando ele falou no exército imaginário, mas chorou um pouco pelo príncipe Júlio, morto tão estupidamente; e chorou até por todos os soldados dos quais nem mesmo sabia o nome.

Basílio IV achou que Fabiano era o mais esperto e também o mais ajuizado; e, como não tinha filhos, pediu-lhe que fosse o príncipe dos Amarelos e que reinasse, mais tarde, no seu reino. O rei Fabiano foi um excelente rei. E, é claro, durante o seu reinado, nunca houve nenhuma guerra.


Anaïs Vaugelade
A guerra
Porto. Ed. AMBAR, 2002

***


  • Achas o Príncipe Fabiano mais inteligente do que o Príncipe Júlio? Por que motivo?
  • E o que simboliza para ti a ovelha? Lembra-te de outras ovelhinhas… de outros livros… que possas conhecer

Gengis Khan - Álvaro Magalhães


Aí está ele, passando revista às tropas

Com a sua armadura reluzente.

Os seus pés levantam ondas de poeira

E ninguém ousa fitá-lo de frente.


Na sua couraça quebram-se as lanças inimigas

E um gesto seu põe em fuga um exército inteiro

… Mas não pode dobrar-se para apanhar uma flor

Nem coçar as costas, o poderoso cavaleiro.



Álvaro Magalhães

O reino perdido

Porto, Ed. ASA, 2000


Quatro mil soldados - Sebastião da Gama

Ra ta plá ta plá
quatro mil soldados
vão mecanizados
pela estrada fora.

Sereninha a hora,
manhã linda, linda,
mas os quatro mil
marcham indiferentes.

Ra ta plá ta plá
que bonito é!
Mas à volta há flores
e nenhum as vê.

Passam andorinhas,
dizem-lhes recados.
De olhos encantados,
passam raparigas.

Ondas lhes acenam.
Melros e pardais
fazem-lhes sinais
pela estrada fora.

Mas os quatro mil
vão mecanizados.
Passos acertados
pelo rataplã;

os ouvidos dados
só ao rataplã;
olhos cegos, cegos,
coração entregue

só ao rataplã
(Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá)

Que monotonia!
Que enfadonha letra!
Entretanto os melros
trinam de alegria.

Trinam, trinam, troçam.
Quatro mil soldados,
todos combinados,
negam a manhã!

Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá
Ra ta plá ta plá


Sebastião da Gama
Campo Aberto
Lisboa, Ed. Ática, s/d.


* * *


Os 4.000 soldados caminham pela estrada fora, indiferentes à beleza da vida. Para onde pensas que se dirigem?

Viagem através do sol - Maria Rosa Colaço

Uma criança sentou-se na tarde agreste e pintou o sol. A sala onde a criança estava ficou iluminada e fresca. Depois, a criança misturou as tintas, a água, o sonho e, num grande cartão, lentamente, foi erguendo prados, lezírias, florestas, aves, flores inesperadas. Então, chamou a irmã que a um canto assistia à criação deste mundo original e disse: «Vamos fazer uma viagem!»

E entraram os dois com seus olhos e sua imaginação pela tela dentro, alheios ao espanto de quem os contemplava nesse itinerário súbito da tarde de frio.

Misteriosamente, trocavam palavras de silêncio, encontravam-se com anões, gigantes e animais estranhíssimos, metade homens, metade bichos que, ora os assustavam, ora os desvaneciam.

A certa altura a menina disse:

— Vamos chamar a mamã?

E o menino respondeu:

— Não podemos. É muito alta. Não cabe nestes caminhos: ia pisar tudo e estes bichinhos ficavam tristes. Muito tristes.

A mãe, imóvel numa cadeira, ali mesmo à entrada desse lugar impenetrável e inacessível, ouvia o diálogo e tentava fazer-se pequenina para ir com eles. Mas não conseguia. Esforçava-se imenso e não conseguia. Tinha uma grande vontade de chorar por estar ali sozinha à beira daquele milagre mas as lágrimas não lhe adiantavam. Entretanto, os meninos, sempre a caminhar, tinham chegado ao mar. Era um mar sem abismos, sem ondas, sem temporais. Um mar susceptível de ser atravessado pelos pés levíssimos de quem o descobria.

— Vamos ao fundo deste mar! — disse a menina.

— Cá em cima é mais fresco. Lá em baixo há peixes grandes e escuros. Mordem, os peixes.

— E a mamã? — insistia a menina, já perturbada pela lonjura a que devia estar de casa, perturbada pelo bibe molhado, aflita com as algas verdes que se lhe colavam ao rosto.

— Levamos-lhe uma flor do mar. Ela fica contente se tem uma flor.

— Vamos já embora? — tornava a menina.

— Não. Só quando formos muiiiiiiito velhos.

A menina calou-se. Estava séria. Estendeu-se ao lado do irmão na areia branca daquela praia tranquila e distante.

Sentia-se muito cansada e adormeceu.

Então, amorosamente, o irmão tapou-a de folhas e flores imaginárias e ficou ali a velar-‑lhe o sorriso.

Quando reparou na mãe, estremeceu ligeiramente. Tinha os olhos brilhantes e, dos cabelos, escorria-lhe um perfume a sol e azul.

Sobre a tela, encostada a um armário, a noite começava a diluir em sombra toda a floresta, e o dorso dos animais marinhos erguia-se também numa respiração tranquila.

Maria Rosa Colaço
Não Quero Ser grande
Lisboa, Ed. Escritor, 1996

A menina dos fósforos - Hans Christian Andersen


Fazia tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre rapariguinha seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua a correr para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.

Por isso, a rapariguinha seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a toda a gente que passava, apregoando: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha-lhe corrido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre rapariguinha! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.

Sentou-se no chão e enrolou-se ao canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de um fogão de sala cheio de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e o fogão desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.

Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a rapariguinha viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de loiças finas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da rapariguinha. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as montras das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direcção à terra, deixando atrás de si um comprido rasto de luz.

«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe muita vez: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»

Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!

— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como o fogão de sala, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.

Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços, e soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.

Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma rapariguinha, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.


Hans Christian Andersen
Os melhores contos de Andersen
Lisboa, Ed. Verbo, s/d

* * *

  • Só um coração de criança é capaz de transformar em beleza uma realidade cinzenta e triste. Concordas?
  • Aqueles que não sabem sonhar não aceitam a existência de um mundo maravilhoso para lá dos conflitos e das privações. E tu, sabes sonhar?




A menina do pinhal - Matilde Rosa Araújo

Era uma vez uma mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo…

Era uma vez uma velha

que bem contava uma história:

uma história muito linda

que ela tinha de memória.

Esta mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, era avó de muitos netos. Netos que, à volta do mundo, a ouviam contar.

E a avó contava, contava, devagarinho, assim a modos cansada.

Cabelos brancos de lua,

Os olhos rindo de manso:

― Era uma vez uma história…

Ai, netinhos, se eu me canso!

E os netos do mundo ouviam… ai!, mas o que ouviam os meninos do mundo? Uma história misteriosa…

Conta a história toda, toda,

Sem tirar sequer um ponto!

Pediam os meninos do mundo

Que a avó contasse o conto.

A avó sorria. Estremecia devagarinho, como se fosse uma árvore que o vento abanasse. E os netos do mundo escutavam.

É o vento da memória

Que me faz estremecer:

Meu coração lembra a história…

Escutem, que o ouvem bater.

E os netos, pelo mundo, ficavam muito calados a escutar a história do coração da avó.

Ai! Se a memória não falha!

Era uma história, era, era…

Era uma história passada

No tempo da Primavera.

E os meninos do mundo escutavam. E repetiam:

Era uma história, era, era…

Era uma história passada

Era uma história lembrada

No tempo da Primavera.

E a avó sorria contente, o coração a bater de alegria. E continuava…

A história de uma menina

Que vivia num pinhal:

Seus brinquedos eram pinhas

Em cestinhas de cristal.

Em cestinhas de cristal.

Cristal da neve dos montes.

Feita de estrelas de água,

Água gelada das fontes.

Nas agulhas dos pinheiros

Cantar o vento ela ouvia

E com o vento cantava

O canto da cotovia.

E o cuco com seu cu-cu,

O gaio com seu piu-piu

Eram caixinha de música

Como nunca ninguém viu.

E os netinhos do mundo ouviam, ouviam. E a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, continuava a contar…

Cabelos brancos de lua.

Os olhos rindo de manso:

― Era uma vez uma história…

Ai! Meninos, se eu me canso!

― Continua, Avó, continua! ― pediam os meninos.

Mas deixem que eu vou contar,

Se me não falha a memória:

Também tinha pombas brancas

A menina desta história.

E rolas mansas, cinzentas,

Com o seu canto a rolar:

Tanta ave no pinhal,

Tanta asa para voar!

E pelo chão do pinhal,

Também tanta vida havia:

Formiguinhas de silêncio

Que cantavam a alegria.

E tantos outros bichinhos

De conta, conta a contar.

A viverem pelo chão

Com segredos pra escutar.

E a avó ficava-se a olhar para o chão poeirento do pinhal cheio de segredos e de caruma.

E os meninos também olhavam muito curiosos para o chão poeirento do pinhal e escutavam os segredos dos bichos pequeninos, das agulhas mortas dos pinheiros.

Mas, ai!, que a avó, de repente,

Gritou: ― Ai! O que é? Que é?

Uma verde lagartixa

Fez-me cócegas no pé!

E os netos do mundo riam, riam, com o susto (pequenino) da avó.

Mas, ai!, que a avó, de repente,

Outro gritinho soltou:

― Uma formiga, na perna,

Aqui mesmo me picou!

E os meninos do mundo riam, riam. Oh! A avó tinha tanta graça!

Agora a avó não estremecia como se o vento a abanasse, docemente, mas dava um pulinho de pulga e coçava a perna picada pela formiga.

― Ó avó, conta, conta! ― pediam os meninos a rir.

E os meninos não paravam de pedir: ― Ó avó, conta, conta!

Ai! Se a memória não falha,

Era uma história, era, era…

Era uma história passada

No tempo da Primavera!

Mas a avó parou outra vez, de repente, parou de contar. E deu outro pulinho:

Ai!, as minhas encomendas!

Rápida como uma seta,

Em meus cabelos de lua

Meteu-se uma borboleta!

E os meninos riam, riam!

― Deixa lá, avó! Continua a contar!

E a avó continuava, coçando a cabeça de luar, de onde voou uma borboleta amarela.

E a avó continuava:

Ouviu-se uma trovoada

E a menina do pinhal

Deixou cair, assustada,

A cestinha de cristal.

A cestinha de cristal,

Cristal da neve dos montes,

Feita de estrelas de água,

Água gelada das fontes.

E as pinhas, seus brinquedos,

Da cestinha de cristal,

Eram verde, verde-pinho

Que rolava pelo pinhal…

E calou-se a trovoada

E rebentaram as fontes;

E flautas de vento verde

Varriam campos e montes.

Nos ninhos abriam ovos.

Eram asas para voar:

As agulhas dos pinheiros

Já tinham novo cantar.

E a menina do pinhal

Já tinha outro brincar:

Com uma saia de giestas

Não parava de dançar…

Xaile de chuva, fininho.

Franjas de sol a voar.

A menina do pinhal

Não parava de dançar…

Com sapatos rosas bravas

Não parava de dançar:

A menina do pinhal

Já tinha outro brincar…

E depois de contar isto tudo, a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, a avó dos meninos do mundo, ficou estafada. Suspirou três vezes: Uf! Uf! Uf! Ah! Ah! Ah! Mas estava tão contente! Que alegria no pinhal e pelos campos! Agora podia descansar.

E agora, meninos do mundo.

Vou dormir devagarinho.

Deitada em cama de nuvens,

Coberta de rosmaninho…

E os meninos do mundo fizeram sinal uns aos outros ― Schiu… ― para se calarem, com os dedos indicadores (os furabolos) diante da boca, em sinal de silêncio, para que a avó pudesse adormecer ― Schiu… Schiu… Schiu…

E embalaram a avó, num cantar amigo, quase calado:

Já sabemos o segredo.

Era uma história, era, era…

Era uma história passada

No tempo da Primavera!

Matilde Rosa Araújo
Histórias e canções em quatro estações
Lisboa, Lisboa Editora, s/d

* * *

Os avós costumam ter coisas interessantes para contar aos netos. E tu, gostas de conversar com os teus avós? De que assuntos?

Aquário - Alice Gomes

Vivia no mar largo
e era feliz
feliz.

Sabia os sítios seguros
onde os maiores e mais duros
não podiam atacar
não o podiam caçar
não o podiam comer.
E continuava a viver.

Quando nadar o cansava
uma alga procurava
e dormia um bocadinho
e a onda que o embalava
era amiga do peixinho.

A onda amiga ondulava
enquanto o acalentava
aquecia
arrefecia
e para longe o levava.

Tão longe
tão vasto o mundo…
o seu mundo!
Tão largo, alto e profundo!...

Que alegria de nadar!
Mas um dia aconteceu
que um fenómeno se deu:
foi pescado
foi levado
para fora do seu mar
para longe do seu lar
transportado
bem fechado
numa prisão de cristal.

E
se não lhe fizeram mal
se o não comeram com sal
está muito descontente
nessa prisão transparente
à vista de toda a gente.


Alice Gomes
Bichinho Poeta: Poesia (também para crianças)

Lisboa, Gráfica Santelmo, 1973